domingo, 4 de outubro de 2015

Eu sei



Eu sei.
O que você quer é ar.
O ar que eu respiro,
O ar que eu suspiro,
quando digo o seu nome. 
Você quer que eu grite a plenos pulmões 
Que você tem a minha alma
E sugar todo esse ar que sai desesperado do meu corpo, enviado por meu atormentado coração.
Você não quer a minha calma,
Você quer a minha respiração acelerada,
Desesperada pra me manter viva. 
Você quer todo o meu ar 
Porque quer ser a minha vida.

O que eu quero é ainda pior
Mais desesperado, mais doente, mais inconsciente e consciente.
Eu quero que você tenha todo o meu ar
Quero que você guarde a minha alma como se fosse seu bem mais precioso 
Quero que você sinta a minha respiração acelerada enquanto gritamos juntos 
E meu corpo está hipnotizado por você.
Nada pior do que simpatia pelo sequestrador 
E eu aprendi a amar você.

Agora vivo como se fosse morrer 
e gosto.
Jamais serei novamente um desses desastrosos seres humanos que pensam que viverão pra sempre, 
pois é dessa forma que não vivem nada.
Quero ter quase mortes todos os dias
Quero que você possua todo o meu ar 
Quero que você tenha a minha vida 
E eu quero a sua também.
Se nós dois queremos então, o que nos resta, meu amor
Senão amar? 
Pois nós dois somos refém e sequestrador 
Um do outro. 
Eu sei.

.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Cidades




Eu tinha uma rachadura em mim.
Uma rachadura provocada pela ordem maçante dos dias e sua correria comum.
Eu tinha uma rachadura por tudo o que eu poderia estar fazendo na minha vida, mas encontrava-me num estado de onda que me levava sempre na direção que nada tinha a ver comigo. 
Por isso e tantas outras coisas, eu tinha uma rachadura.
Achava que a dor seria a pior coisa.
A dor da negligência, a dor do tempo perdido, a dor das chances não aproveitadas, a dor de abrir mão da única coisa que eu sempre quis na vida: Ser eu. 
Achava que seria a pior coisa, mas no fim, a aceitação foi pior.
Algo que não poderia mudar: Minha mente e meu corpo já tinham aceitado.
E enxergar essa aceitação foi sim a pior coisa.
Eu havia me perdido pra sempre.
No momento em que percebi isso, minha alma foi invadida por milhões de rachaduras que estavam apenas adormecidas, esperando que eu enxergasse o óbvio.
E essa sim foi uma sensação dolorida.
Sentir a ficha caindo, um milhão de vezes, num milhão de formas diferentes, poderia me matar ali mesmo, mas dura como sou, a última rachadura que faltava rachar para me encerrar completamente, não rachou.
Pois eu sou insuportavelmente forte.
Sempre coloco cimento nas rachaduras e continuo andando.
E talvez esse seja o problema: 
Se deixasse-me quebrar por inteira para assim ser construída de novo
Talvez minha fortaleza não fosse mais assim tão insuportável.
E comecei a pensar sobre isso.
E cada vez doía mais.
Me sentia uma criança tentando montar um quebra cabeças de adulto.
A auto anulação era muito pior do que ser exatamente o que eu queria ser e cair depois.
Eu simplesmente não conseguia juntar nem as duas primeiras peças.
E como uma criança frustrada, jogava todas as peças longe, esperando que sumissem, ou que se resolvessem sozinhas.
Mas nada acontecia, pois estava num estado de pirraça.
Nunca seria capaz de montar esse quebra cabeças de nada, se tinha todas as emoções em mim.
Minhas mãos (que nada tocavam)
Olhos (cegos)
Lábios (fechados)
Nariz (entupido) 
Ouvidos (surdos)
Pés (que me levam pra lugar nenhum)
Pernas e braços (que a ninguém agarravam ou abraçavam)  
Minha cabeça (que mal recordava ao redor)
E meu coração, que já não tinha mais espaço pra nenhuma das novas rachaduras que tentavam nascer repentinamente 
Inflado...
Já não tinha mais espaço pra nada.
Na manhã seguinte da percepção da auto anulação continuei com dor.
Acompanhada de outras coisas, essa dor me atormentava e nunca me deixava em paz.
Levantei da cama, fui comprar um calmante, fui até a polícia pedir ajuda pra desligar a bomba relógio no meu peito que ecoava pela minha cabeça
Mas ninguém foi capaz de resolver.
Cheguei em casa com a bomba ainda ativada e pensei em deitar na minha cama pra esperar a grande explosão, onde eu finalmente me tornaria o nada.
Mas sou feita de todas as emoções possíveis, portanto, não fui capaz de fazer nada disso. 
E foi nesse momento que percebi que nunca havia deixado de ser quem era.
Que essa aceitação da auto anulação era apenas mais um efeito das estranhas rachaduras que apareciam em mim, mas que nunca desmoronavam nada.
Era a dor por parcela que me atormentava, não a ideia de uma explosão geral.
E então finalmente explodi, ali, em mil rachaduras, estrelas, cacos de vidro e o que quer que tivesse sobrado de mim.
Mas havia sobrado tudo.
Eu ainda estava lá.
A bomba finalmente explodiu para que eu me reconstruísse e me tornasse inteira de novo.

domingo, 13 de setembro de 2015

Conto de invernico



Hoje eu vi um drogado. 
Ele me pediu dinheiro enquanto eu esperava pelo ônibus 

encolhida no meu guarda-chuva com meus sapatos encharcados...
Numa fria noite de sábado. 

E ele não tinha guarda-chuva. 
Tinha apenas a ilusão de que cinco reais o dariam a felicidade que um milhão não pode dar.
Felicidade momentânea.
Eu definitivamente não sei viver assim.


Ontem andei pelas ruas de paralelepípedo molhadas 
Com minhas botas já meio furadas 
Fazendo barulho no deserto da madrugada 
Andei encharcada 
Andei atordoada 
Assim como aquele drogado que me pediu dinheiro hoje
E que nem se importava em estar na chuva... 
Ontem eu também estava encharcada.

O meu caso era ainda pior 
Eu não tinha uma nota de cinco reais pra me iludir 
Não tinha um universo paralelo onde me perder 
Não tinha uma realidade da qual pudesse fugir.
Tinha apenas ruas de paralelepípedo encharcadas 
Botas furadas e pensamentos desgastados 
Tinha isso e apenas isso... 
Cabeça cheia de tantos exageros
E coração sobrecarregado de tantos sonhos.
Tinha isso e apenas isso.
Nenhuma felicidade momentânea. 

domingo, 6 de setembro de 2015

Aqui está



A poesia vive dentro de mim quando eu olho nos olhos dele e gargalho da risada dela. E como cada momento como esse é único na minha vida e eu sei que este tempo nunca mais existirá igual. Sinto-me melancólica por isso, sinto saudade de coisas que ainda nem terminei de viver. E por causa disso, a poesia não está morta.A poesia não está morta - ela vive dentro de mim. Quando eu acordo e enxergo dois mundos diferentes, com características vívidas e detalhadas - ela vive dentro de mim.
A ansiedade que habita em mim é sempre imprevisível. Hora transforma-se em gritos - e há momentos em que não tenho voz suficiente para gritar toda gritaria que existe em mim - hora transforma-se em poesia, pois tenho consideração extrema por ela, por essa mulher tão fascinante que juntando tantas palavras diferentes no mesmo formato torna-se a salvação de minha pobre garganta que já não aguenta mais gritar. Não posso deixar a poesia morrer.
A poesia não está morta, e sendo uma mulher como é, torna-se um pesadelo de conflitos dentro de mim - não posso viver sem ela e quero me livrar dela.
E mesmo meus pés gelados nesse final de inverno sabem que ela nunca estará morta: É só questão de saber olhar o mundo com olhos que só ela pode entender. A poesia não está morta.
As lembranças do Monza do meu pai cheirando a cigarro e Halls, tocando blues no último volume e um aperto estranho no coração, de uma época mais estranha ainda, só existem porque eu sempre fiz questão de cuidar muito bem da poesia que existe dentro de mim.
E nesses domingos em que por um acaso cruel chego mais cedo no trabalho e desço da realidade para tomar um café com o meu cara, a poesia existe. Existe no olhar que o homem da outra mesa direciona a mim, existe na risada de um bebê, existe no relógio que roda rápido, existe na coleção de louças antigas da cafeteria, existe na minha mochila rasgada e no cabelo do meu cara precisando cortar, e no e na minha careta, numa tentativa de fazê-lo rir. Existe, existe, existe.
A saudade que me trás uma foto antiga de quando meu irmão era bebê e eu passava todo tempo que era capaz de passar com ele - 15 horas do meu dia - me dá uma surra, quase caio em lágrimas nesse instante e o que me segura é a poesia, que não está morta e que é uma doce agonia na minha vida.
Quando estou na minha cama e tenho esses sonhos que não parecem ser meus e me vejo numa Lua de duas cabeças, alta como uma bananeira, nadando numa piscina de café, eu posso afirmar que isso tudo é mais do que suficientemente poético para a poesia existir, principalmente quando sonho com lábios no escuro - a poesia não está morta.
E eu sei que mesmo quando já não estiver mais aqui e não restar nada além do meu sangue transferido para contar história, mesmo assim, eu sei que a poesia nunca estará morta. 
A poesia não está morta.  

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Olhos perdidos


Hoje eu me vi numa garotinha, 
Me vi numa idosa, 
Me vi no anúncio de maquiagem
E nos olhos de um homem.
Nas fotos 
E no espelho.

Me vi em tantos medos 
De uma idosa.
Me vi em tanta coragem 
De uma garotinha.
Me vi e não vi 
Conclui, mas fingi que não entendi.

Hoje eu acordei e me pus pra fora de uma cama que não era minha
Saí de uma roupa que usei por descuido
Do dono.
Da dona.
Do acaso.
Do acidente.
Do trágico.
Pelo desmaio do destino 
Que apagou bem na hora que tudo isso se plantou na minha frente
E eu vesti como se fosse meu...
Nunca foi.

Hoje eu me vi em tantas pessoas, em tantos lugares 
Imaginei mil histórias, pensei em mil palavras 
Escrevi apenas seis:
Eu não me vejo em mim.
E o sentimento que isso me trás 
É irracional além de qualquer reflexo embaçado. 
Eu não me vejo em mim.

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Manhã impaciente


Ouço passos no meio de uma manhã nublada. 
Ouço uma música e vejo o sol 
(pouco a pouco) 
Voltar a ser mais forte do que as nuvens.
O farol da baía não ilumina a minha casa: Estou no alto e ele é mais baixo.
Mas a essa hora da manhã não há farol
Há apenas um corriqueiro navio, um barco, pássaros voando e as horas passando.
Não se sabe ainda se será um dia de chuva ou sol 
E eu ainda não sei de quem são os passos que ouço na escada, cada vez mais próximos... 
O dia não está feio e nem bonito e é tão forte seu brilho 
Que ainda não é possível enxergar beleza ou perigo 
Claridade que cega.
Tão claro que não posso ver.
O quão irônico parece isso?

Alguém bate na porta 
Quem será a essa hora?
Ainda nem dei meu primeiro gole de café 
Ainda não sei que tipo de dia será esse 
Provável que não seja um muito simples, já que estão batendo à minha porta sem eu ter tomado nem mesmo um gole - Essa seria uma boa hora para voltar pra cama. 
Não posso voltar. 
Não estou com sono, mas também não estou acordada.
Estou no meio daquele momento entre levantar da cama e realmente despertar 
Esperando a água ferver. 
Não quero abrir a porta, ainda não estou pronta pra receber 
O que quer que seja que alguém veio dizer.
Já falei com a vida diversas vezes 
Já conversei com ela e pedi: Sem mais imprevistos.
Mas a vida sendo como é, só faz o que quer
Trouxe alguém à minha porta antes mesmo do meu primeiro gole de café 
A vida nunca espera ninguém estar pronto 
Apenas planta alguém bem na sua porta, mesmo que essa pessoa ainda não saiba se será um dia feio ou bonito.
A vida não espera nem mesmo o intervalo entre esse pensamento e aquele.

Minhas janelas estão abertas - tarde demais, já fui vista.
Descabelada, cara inchada, pijama surrado, olhos fechados. 
Vou ter que convidar pra entrar, vou ter que tolerar. 
Dividir meu café enquanto recebo as notícias que definirão 
Se será um dia feio ou bonito.  

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Péssima história de reflexo picotado

É engraçado quando olha-se no espelho
E é tudo o que não gostaria de ver 
Quando já não se reconhece mais e vê algo esperando ver outra coisa
Como ser um estranho numa pele estranha 
Como um pesadelo ou uma péssima história de reflexo picotado.

Será que alguém poderia encaixar-se numa outra pele?
Será que outra pele conseguiria abrigar outro alguém?
Bombear o sangue por veias tão entupidas de pensamentos 
Respirar com pulmões que vivem de suspiros causados pelas lembranças daqueles momentos? 
Será que outra pele aceitaria outro alguém?

É a pior história de reflexo picotado 
Acordar e não conseguir mais suportar viver o que chamam de "minha vida", "sua vida", "vida de alguém"
Vida de quem?
Essa é a pior história de reflexo picotado ou o pior pesadelo acordado 

Não reconhecer-se mais em cada pôr do sol ou em cada ventania 
Quando alguém já não sabe mais quem é 
Quando alguém perdeu-se num corpo que dizem ser seu 
Quando alguém perdeu-se na vida que dizem ser dela 
Será que uma outra pele conseguiria abrigar 
O ser que vive preso numa péssima história de reflexo picotado?

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Nuvem

Não é fácil escrever uma poesia do zero 
Essa manhã acordei querendo escrever alguma coisa 
Mas como sempre, meus pensamentos desesperados fazem com que as palavras fiquem embaçadas 
E eu não consigo me expressar. 
E é difícil, é difícil escrever uma poesia do zero 
Quando não está inspirado
Classificar um poema, me sentir plena 
Eu gosto pensar que tudo sempre pode ser melhor 
Mas às vezes me deixo levar pelo coração 
Que adora viver na minha boca. 

Acusações que vem e vão, durante toda a minha vida 
Ninguém sabe que prefiro ser um furacão que vive toda a vida que há pra viver 
Do que ser uma covarde bem agarrada à segurança 
Gosto de manter minha coragem bem viva
Gosto de acordar e sentir a esperança do dia 
Mesmo que minha própria cabeça seja minha maior tortura 
É bom me sentir viva.

Você não sabe, mas a maior parte dos seres humanos não são tão interessantes quanto pensam ser 
Nem eu, nem você 
(apenas viva)
Só o que podemos fazer é viver a vida que nos foi dada 
(apenas viva)
Não espere ser um grande sucesso 
(apenas viva) 
Espere apenas fazer valer seu sangue 
(apenas viva) 
Seja louco e atire-se 
(apenas viva)
Antes que se torne tão responsável e não consiga mais sentir 
A adrenalina dos ventos de mudança 
(apenas viva)
É isso que acalma a minha mente.

Eu apenas vivo. 


segunda-feira, 27 de julho de 2015

Avesso


Olho em volta procurando por um pouco de luz nas ruas 
Estou dentro de um ônibus apagado 
Na calada da noite
E me sinto como se estivesse andando por cacos de vidro 
Com pés descalços 
E sonhos esmagados.

Tudo o que foi dito e o que não foi dito 
Está voltando pra mim agora 
E eu sabia que iria voltar 
Sempre volta alguma hora.
E aqui estou eu, num ônibus apagado 
Indo ao encontro de tudo que um dia 
Espalhei por aí 
Como se não fosse nada 
Como se fosse natural ao ponto de meus olhos não conseguirem perceber.
Eu soltei e deixei a pista pra me encontrar
Então como poderia reclamar?

Não há mais nada agora 
Nem as estrelas, nem a lua, não há o conforto da noite ou a esperança dos dias 
Não há nem luz dos postes
Há apenas o que eu soltei por aí
E posso sentir, a cada mudança no vento pela janela desse ônibus 
Que me aproximo cada vez mais ao encontro daquilo que dei a vida um dia.

O mar está de ressaca 
Meus pés estão presos na areia 
O ônibus avança com tudo pra dentro dessas ondas revoltas
Não há nada que eu possa fazer. 
Estou fora e estou dentro 
E está vindo 
Tudo aquilo está voltando 
Arrastando meus pensamentos pra loucura
De conseguir encontrar qualquer luz por aqui...

terça-feira, 21 de julho de 2015

Binóculo



Eu às vezes tenho esses pensamentos que me vem repentinamente quando a vida acontece entre o esperado e o inesperado, e ninguém está prestando atenção. Eu os chamo de pensamentos aleatórios sobre o cotidiano. Aquelas coisas normais de todo dia que ninguém valoriza muito, aqueles pequenos momentos perdidos dentro dos grandes acontecimentos, que revelam muito sobre as pessoas à nossa volta e sobre como certas coisas são parte de um círculo vicioso. Manias, expressões, hábitos passados de geração em geração que ninguém nota, ou simplesmente não sabe explicar porque esses hábitos existem. Eu presto atenção nessas coisas, e assim, acabo conhecendo mais e mais minha família, nas coisas mais inconscientemente enraizadas, acabo conhecendo mais a mim e chego cada dia mais perto de saber sobre tudo o que sou capaz ou não de fazer e de sentir. 
Essas coisas aleatórias e imperceptíveis pros outros acabam tornando-se pra mim, pequenas certezas que viram pensamentos obsessivos e perseguidores em momentos de tédio; no meu banho, tarde da noite, quando estou na minha cama tentando dormir.
E a minha vida, nos momentos em que ninguém está olhando, nos momentos em que estou sozinha, nos momentos em que sou obrigada a me relacionar apenas comigo mesma e me encontro no meio de um auto julgamento por tantas coisas que eu fiz, ou nos momentos em que nada de interessante está acontecendo, minha vida acaba tornando-se uma prisão de pensamentos perseguidores e masoquistas. E é por isso que me sinto tão bem no desconhecido e mudanças me fazem tão bem: A adrenalina de não saber, me salva dos pensamentos causados pelas lacunas do cotidiano.